A ORDEM PARA A VIDA

 D.  Rodrigo Perissinotto, OSB.

(E-mail:  perissinott@cultura.com)

O mundo grego acreditava que antes de o universo ser feito o que havia era a desordem, a bagunça. A isso os gregos chamavam de Caos. As coisas começaram a existir quando esta desordem começou a ser organizada. Disso surgiu o Cosmo, a ordem, a vida. Ao lermos a Bíblia, encontramos no relato da criação Deus que organiza os elementos para que a vida surja. Separa luz e trevas, água e terra, distribui os diferentes tipos de animais cada qual em seu próprio habitat. Por fim cria o homem e a mulher para tomar conta de tudo e manter a organização (Gn 1,1-2,4a ).

A ordem e a organização são elementos necessários quando queremos viver e ter uma vida saudável. Sem um mínimo de ordem ficamos perdidos. Não conseguimos realizar nossas obrigações. Gastamos muito tempo em atividades que poderiam ser realizadas com maior presteza.  Os estudantes quando não têm uma disciplina de estudo, não conseguem assimilar o conteúdo ou sentem grande dificuldade de acompanhar as aulas.

No dia a dia, quando temos disciplina, prioridades, metas e método, caminhamos com maior calma e temos uma vida mais saudável. São Bento foi um homem que se preocupou muito com a disciplina e a ordem. Não por uma obsessão ou paranóia. Ele entendeu que para que houvesse uma vida saudável dentro dos claustros dos mosteiros a ordem era necessária. Por isso escreveu uma regra para seus monges. Nela ele buscou estabelecer algo que não fosse duro demais (RB Pr. 46) e que pudesse afugentar os irmãos mais ‘fracos’ (RB 48,24). Mas não descuidou também os mais fortes e levou em conta a sua força, para que não desanimassem em razão das coisas serem muito fáceis. Por isso Bento, tendo em conta cada pessoa, buscou sempre a moderação e o equilíbrio, seja na medida da comida (RB 39) e da bebida (RB 40, 2.8); seja no castigo (RB 24,1; 25,5) ou no trabalho (RB 48, 9); e até mesmo no sono (RB 8,1).

 Por vezes, São Bento é minucioso em estabelecer horários para o mosteiro. Em uma visita desatenta à Regra, pode surgir a impressão de que tudo é muito duro na vida do mosteiro. Mas ao visitá-la com calma se pode perceber que há um equilíbrio.

Este equilíbrio se percebe na distribuição do tempo que ele destina ao trabalho, à oração, à leitura e ao sono. Não se tira de uma atividade para se valorizar outras. Tão importante quanto a oração é o trabalho, a leitura e descanso. Cada coisa tem seu tempo. Aqui poderíamos aprender com São Bento. Num mundo onde se corre tanto e se vive em função do relógio, talvez tivéssemos um pouco mais de tranqüilidade com uma programação equilibrada. Hoje é importante lembrar que além da vida de trabalho, precisamos da vida familiar, do lazer e do descanso, para cultivarmos o corpo e o espírito. Sem o equilíbrio destes elementos, a vida corre o risco de perder seu sentido.

(InFormAção, Vol. 4, Nº 7, Julho 2002)

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