A VOCAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS

 D.  Josias Dias da Costa, OSB.

(E-mail:  josiasosb@hotmail.com)

Como soe acontecer todo ano, durante a Quaresma, a Igreja Católica no Brasil promove a Campanha da Fraternidade, chamando a atenção da população a um problema social que aflige a população e exortando essa mesma população a uma tomada de posição, tendo em vista a solução do problema.

Este ano, tendo como foco de atenção os povos indígenas, nossa Igreja busca a solidariedade de todos à caminhada e à luta dos povos indígenas por uma terra sem males.

A Terra sem Males é uma realidade na existência dos povos indígenas, desde muito antes da ocupação e colonização européia do continente sul-americano. É o estado de vida em que o ser humano se encontra em perfeita harmonia consigo mesmo, com os seus semelhantes, com o meio ambiente e com o Criador.  É a versão dos primeiros habitantes desta terra do Paraíso bíblico, o estado de felicidade que Deus projetou para o ser humano, sua obra-prima na Criação.

Este estado de felicidade que nos move à sua conquista é o que dá sentido ao nosso viver. É uma realidade que nos foge, por isso mesmo faz parte do ideal de totalização da vida ou da realização plena de nossa humanidade. Não teria sentido a vida de quem estivesse em busca daquilo que já possui o suficiente. Noutras palavras, ninguém buscaria o paraíso se já estivesse nele.

Sertanistas, antropólogos e literatos que retrataram ao longo dos anos, de modo descritivo, a realidade "fenomênica" dos povos indígenas, despertaram na sociedade uma visão "romântica" a respeito desses povos, como se eles já vivessem no paraíso.

Ora, os povos indígenas do Brasil, embora nunca tenham se apossado da terra para fazer dela uma mercadoria, sempre tiveram que lutar por um espaço e pela garantia da sobrevivência. Atuando como coletores, caçadores, pescadores, agricultores ou tudo isso ao mesmo tempo,  eles precisaram de espaços para viver e de "calendários" para identificar as "estações" das chuvas, da seca, do caju, da gabiroba, do araticum, da piracema etc.

Além dos conflitos entre os diversos grupos, estes povos não estão isentos também do sofrimento causado por intempéries, cobras, estrepes no pé, fraturas etc. E como todos os outros povos, eles enfrentam a morte e choram a dor da partida.

Mas sua situação começou a se agravar de modo muito acentuado com a chegada dos colonizadores, que lhes  fizeram conhecer de perto o inferno  e trouxeram a eles e a todos os que lhes foram solidários a morte injusta.

Defender a vida diante da opressão e da repressão da qual se tornaram vítimas, se tornou uma necessidade premente para esses povos, que vivem em casas cobertas com folhas de palmeiras e domem em esteiras espalhadas pelo chão.

E a nós nos resta a tarefa de conhecer melhor sua cultura, seus valores, suas dores, seus desejos, suas esperanças e, sobretudo, os seus pensamentos a respeito dos projetos sociais concernentes a eles.  Porque nós, que a exemplo deles necessitamos de uma Terra sem Males, temos muito a aprender com os mais antigos povos da Ameríndia.

(InFormAção, vol. 4 nº 2 Goiânia, Fevereiro 2002)

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