ABAIXO A INTOLERÂNCIA

 D.  Josias Dias da Costa, OSB.

(E-mail:  josiasosb@hotmail.com)

No dia 15 de setembro de 2001, andando por Brasília, fiquei estupefato ao ver outdoors espalhados pela cidade com a seguinte frase: "Se você não aceita Jesus Cristo como salvador, você será condenado ao reino das trevas e já está no inferno". No dia anterior ouvi, em Goiânia, pela Rádio K do Brasil, uma ouvinte reclamar dos ataques que um certo padre "católico", muito evidente na mídia, vem fazendo ao espiritismo, religião seguida pela dita ouvinte e pela sua família. Quatro dias antes, dia onze, ainda lembrando a imagem das crianças católicas atacadas com pedras por "protestantes" de uma cidade irlandesa, eu me encontrava em Nova Xavantina, Mato Grosso, quando um acontecimento deixou o mundo abalado: as chamadas Torres Gêmeas do Centro Mundial do Comércio, em Nova Iorque, e a sede do Pentágono, em Washington, explodiram-se, sob ataques atribuídos a terroristas "muçulmanos". 

Será que as pessoas que puseram os outdoors em Brasília, agredindo a todos os que não são cristãos – judeus, muçulmanos, budistas, hinduístas, ateus, etc. – são mesmo evangélicas? Ou fizeram isso porque são preconceituosas, arrogantes, soberbas e, quem sabe, ignorantes?

E a senhora espírita, será que foi ofendida por um padre católico ou por alguém que, pela sua intolerância, em nada se difere daqueles que fizeram os outdoors na capital federal? Católico não é aquele ou aquela que busca viver a sua fé e exercer a sua humanidade num sentido universal, respeitando a diversidade cultural dos povos?

Será que as crianças católicas da Irlanda foram atacadas quando iam para a escola porque as pessoas que moravam na rua por onde elas passavam eram protestantes? Não seria porque aquelas pessoas que gritavam palavras ofensivas e atiravam as pedras eram más e se encontravam dominadas pelo ódio, um sentimento de morte que cega e tira a luz da razão?

E os fanáticos que fizeram ruir as imponentes torres de Nova Iorque e abalaram o Pentágono – o lugar "mais seguro" do planeta! –, matando milhares de pessoas, inclusive alguns brasileiros, deixando humilhados milhões de estadunidenses e causando indignação em quase todo o mundo?... Eles fizeram essa loucura porque são muçulmanos ou porque amam a morte de modo profundo, muito mais profundo do que aqueles que, em nome de sua própria fé, depreciam e atacam a fé daqueles que seguem outros credos?

Eu sempre gosto de dizer: Que bom ser cristão! Quanta alegria se pode sentir por encontrar em Cristo a salvação! Quanto prazer se pode encontrar ao vibrar neste Corpo de Cristo que é a Igreja! Um discípulo de Cristo tem tudo para sentir-se privilegiado pela fé que professa, uma vez que o Cristo traz a boa notícia do Reino de Deus, quebra as correntes dos cativos (ódio, preconceito, ignorância, fanatismo, soberba, inveja, injustiça...), anuncia a paz e remete-nos a um tempo novo de graça (Cf. Lc 4,14-21). É assim que o Apóstolo Paulo, enfrentando as piores tribulações, deixa-se transbordar de alegria. (Cf. 2Cor 7,4; 12,10).

Mas, exatamente por professarmos a fé em Cristo é que temos de amar e respeitar até mesmo os nossos inimigos (Cf. Mt 5,44). E muito mais temos de amar e respeitar aqueles que professam uma fé diferente da nossa e que muitas vezes são nossos vizinhos e podem muito bem ser nossos amigos, sejam eles muçulmanos, judeus, budistas, hinduístas, espíritas ou mesmo ateus. 

 (InFormAção, vol. 3,  nº  9  Goiânia, Setembro 2001)

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