ANALISTA OU CONFESSOR? (I)

 D.  Josias Dias da Costa, OSB.

(E-mail:  josiasosb@hotmail.com)

 

Wictor White, no capítulo IX de seu livro Deus e a psicanálise, faz uma crítica aos psicólogos que vêem a confissão sacramental como um prenúncio pré-científico, ingênuo e rudimentar da análise psicológica. Ele dirige sua crítica também aos católicos que vêem a psicanálise como uma forma secularizada e truncada da confissão. Para ele há semelhanças que revelam afinidades e conexões entre as duas, mas há também diferenças essenciais. Daí que o analista e o confessor não devem se passar um pelo outro.

Uma diferença fundamental entre elas consiste no fato de que a análise não se serve de fórmula pré-estabelecida, de planos pré-determinados, tudo depende do processo em que o analista e o analisado estão envolvidos; já no sacramento da penitência os ingredientes são claros e precisos, divulgados e conhecidos, de tal forma que o penitente já sabe o que vai acontecer, o que cabe a ele e ao confessor.

Mas há outras diferenças fundamentais: uma psiconeurose é um mal involuntário que as pessoas sofrem ou suportam, enquanto que os pecados do penitente são males, em certa medida voluntários, que as pessoas fazem. A análise diz respeito a uma espécie de má fortuna e ocupa-se de certos resultados das compulsões humanas; já o sacramento diz respeito às más ações voluntárias e ocupa-se de certo mau resultado da liberdade humana. Uma pressupõe a necessidade e a impotência e procura resgatar a liberdade; e a outra pressupõe o poder de pecar, de desviar-se do pecado e procurar o perdão.

Além dessas diferenças fundamentais há as secundárias:

1) A psicoterapia volta-se para o inconsciente tanto quanto para o consciente; já o pecado do penitente é essencialmente consciente.

2) A psicoterapia não se confina nos fatores adquiridos, mas dá importância ao "inconsciente coletivo", isto é, não dispensa o que vem da hereditariedade; a confissão, entretanto, estende-se aos pecados atuais (o remédio aos herdados é o batismo).

3) O analista requer a "confissão" não só das más ações, mas também das boas; o confessor requer algo determinado e restringe aos pecados depois da última confissão.

4) O analista vê as más ações como causas ou sintomas de neuroses e o confessor as vê como ofensas morais.

5) Ao analista interessa mais o porque daquilo que o paciente faz e ao confessor o que o penitente faz.

6) Na análise há desconcentração favorecida pelo conforto do consultório (poltrona), e na confissão há uma concentração da memória consciente e a narração ordenada do seu conteúdo, favorecida pelo desconforto do confessionário (genuflexório).

7) A análise desconhece a contrição e a satisfação definidas e deliberadas na confissão.  Numa o remédio vem do analista, mas ele não reivindica o poder divino para perdoar pecado, nem tem a autoridade para pronunciar juízos morais e como regra não o fará. Já na confissão, as palavras de perdão pronunciadas pelo padre são o verdadeiro remédio para o mal do penitente. E o confessor procede como juiz da retidão ou das maldades morais do que lhe é dito.

Diante de tais diferenças, fica claro ao analista e ao confessor o papel de cada um. Mas convém ressaltar que a análise e a confissão, embora diferentes, não são antagônicas. Sobretudo porque as convergências entre elas são maiores e mais fortes que as divergências.

(InFormAção, Vol. 2  Nº 3, Março 2000)

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