ANALISTA OU CONFESSOR? (II)

 D.  Josias Dias da Costa, OSB.

(E-mail:  josiasosb@hotmail.com)

 

A análise e a confissão, conforme vimos em artigo anterior, são duas coisas que se diferem uma da outra. Mas ainda segundo Wictor White¹, há entre ambas íntimas conexões, que nos possibilitam falar tanto do "valor psicológico" da confissão quanto das "incidências religiosas" de certas análises.  Eis algumas dessas conexões:

1) Há um nexo causal entre o mal que as pessoas fazem (malum culpae) e o mal que as pessoas sofrem (malum poenae): o primeiro é causa do segundo, mesmo que indiretamente.

2) Não se pode diagnosticar uma neurose sem ter em conta os valores éticos do paciente.

3) A confissão não se ocupa da psiconeurose, mas há casos em que ela é indiretamente terapêutica, já que remove as causas da neurose.

4) Um exame de consciência freqüente e honesto e a formulação de suas conclusões no confessionário promovem a autoconsciência e evita que as facetas desagradáveis da personalidade penetrem no inconsciente, lugar em que se geram os sintomas neuróticos.

5) A análise, embora não tendo o fim de perdoar pecados, pode libertar o doente das compulsões que impedem o pecado e o arrependimento. 

6) A análise, também, embora não requeira a contrição, exige para seu êxito, uma mudança radical na perspectiva consciente, uma mudança de idéias (metanoia) e concomitantemente uma mudança de valores morais e de proceder.

7) Conforme Jung, a doença vem pela perda do que proporcionam as religiões, e a cura só após a recuperação de uma atitude religiosa.

8) Pode ser que os objetivos de uma das duas coisas diversas sejam atingidos pela outra; porém, na confissão, a cura só se daria em decorrência de atividades humanas conscientes, enquanto que na análise a graça e o perdão só viriam por causa da resposta que o paciente dá a singulares favores de Deus.

Explicitadas em artigo anterior as diferenças e agora as conexões entre a análise e a confissão, espera-se que cada uma seja colocada em seu devido lugar e a cada uma seja dada a devida importância. Em seu livro Psicologia e Religião, Jung² constata que certas neuroses comuns entre os protestantes não eram verificadas entre os católicos, porque estes procuravam o confessionário para receber o perdão e assim ficavam livres das mágoas e rancores que causavam as neuroses. Jung era protestante, mas não deixou de dizer, mesmo que nas entrelinhas, que a abolição da confissão pelos protestantes tenha sido uma perda. E da mesma forma poder-se-ia afirmar ser uma perda pensar que certos penitentes vão resolver os seus problemas sem diagnosticar, através de uma análise, as causas do males que estão sofrendo, e  que os trazem  constantemente ao confessionário.

_______________________________

¹ Cf. Victor WHITE,Deus e a psicanálise,Lisboa,Morais,s/d.

² Cf. Carl Gurtav JUNG, Psicologia e religião, Vozes, 1978.

(InFormAção, Vol. 2  Nº 4, Goiânia, Jan. 2000)

VOLTAR