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DE ONDE VÊM AS PRIMEIRAS SEMENTES D. Josias Dias da Costa, OSB. (E-mail: josiasosb@hotmail.com) Eu nasci na tarde de quinta-feira do dia seis de dezembro de 1956, ao barulho da cachoeira do Córrego Vitorino, e do toc-chuá do grande monjolo, movido pela água que descia por uma bica confeccionada a partir de grossos troncos de árvores. O córrego, nascido a cerca de um quilômetro, descia outro tanto para desaguar no rio Sucuriú, logo abaixo de um salto de quase setenta metros, que fazia um barulho aterrador. Nesse mesmo ano Brasília começava a ser erguida no Planalto Central e o país vivia um clima de euforia. Mas ali naquele sertão de Mato Grosso do Sul, as notícias do resto do mundo eram muitíssimo escassas. As cidades mais próximas distavam trinta léguas ou centro e oitenta quilômetros daqueles ermos que vinham sendo povoados deste a Guerra do Paraguai. Ao oeste situava Camapuã, cujo município chegava até o Sucuriú; ao leste, do outro lado do rio, estava Cassilândia; ao norte Alto Araguaia e ao nordeste Mineiros, esta última localizada em Goiás. O nascimento de uma criança era acompanhado de muita festa. Soltavam-se fogos e, na falta deles, lançava-se mão da espingarda cartucheira, da carabina de caçar anta ou mesmo de revólver. Vinha uma criança ao mundo, dava-se um tiro para festejar, acrescentando-se a ele gritos de contentamento, pois essa criança logo cresceria para montar os cavalos; campear e tanger o gado; ordenhar as vacas; cuidar do cafezal; servir de candeeiro nos carretos; plantar e colher o arroz, o feijão e o milho; descaroçar e cardar o algodão e ajudar na moagem da cana para fazer açúcar, rapadura, doces e cachaça. Naquele mesmo mês em que nasci, a uns dois quilômetros acima do Salto do Sucuriú, por iniciativa de José da Costa, um senhor muito andado, que escriturou as terras da região, fez-se um loteamento que daria origem à cidade de Costa Rica, em homenagem ao fundador e à terra considerada muito rica. Essa era a lógica dos homens que lá estavam, incluindo meu pai, Jerônimo Maranhense, que nunca gostou do apelido, dado também aos seis de seus onze irmãos que ali viveram: Sadica (Dalgisa), Ioiô (Esmeraldo), João, Sebastião, Luzia e José. Costa Rica nasceu em torno de uma estrada utilizada pelo goiano Sebastião Carrijo, que construiu uma ponte para chegar com seu caminhão do outro lado do rio. A estrada cedeu lugar a uma larga e bela avenida, no início da qual foi erguida a Igreja Santo Antônio. A festa desse padroeiro era o acontecimento do ano. Meu pai era um dos que gritavam os leilões das prendas oferecidas pelos devotos. Nessa ocasião, batizavam-se as crianças, casavam-se os jovens, confessavam-se os penitentes e celebrava-se a Eucaristia. Por isso, Frei Vicente Weber, franciscano capuchinho de Muçum (RS) e que exercia a função de Pároco de Camapuã, era presença certa para semear a Palavra e espalhar para nós todos um pouco da alegria sempre estampada em seu rosto. Fr. Vicente, de quem recebi o batismo, vive hoje numa cadeira de rodas, na Paróquia São Judas, em Porto Alegre (RS), suportando o peso de seus 83 anos de idade e 58 de sacerdócio dedicados a Deus com muito amor. E eu, que deixei Costa Rica, em 1967, e vim parar nestas belas terras goianas, nunca me esqueci deste homem de Deus que um dia ainda quero ver. (InFormAção, Vol. 3 Nº 5, Goiânia, Maio 2001) |