FRUTO DA HISTÓRIA

 D.  Rodrigo Perissinotto, OSB.

(E-mail:  perissinott@cultura.com)

Somos fruto de nossa época. Não duvidamos desta afirmação. Nossa maneira de pensar, agir e nos relacionar é determinada pela realidade em que vivemos. E mesmo esta realidade na qual nos encontramos é fruto da história. Não surgiu do nada. Foi construída dentro de um processo histórico. A forma como vivemos nossa fé também não foge desta determinação.

Ser cristão hoje em pleno século XXI é diferente de ser cristão no século III. Para aqueles a vivência da fé exigia uma conversão radical. Hoje isto não é mais tão exigente. Vivemos num ambiente de maioria cristã. Ser cristão é apenas continuar na tradição de nossos pais. Não conhecemos a perseguição por sermos cristãos. Nosso cristianismo não exige uma prova pública de nossa fé. Basta estarmos aí. No entanto para que isso fosse assim, foram necessários 20 séculos de cristianismo. Neste período fomos bebendo de diferentes tradições e as assimilando. Hoje somos uma “síntese” desta história.

Convido agora a lançarmos nosso olhar sobre São Bento. Ele nasceu no fim do século V. Quando ele nasceu o cristianismo já era uma religião firmada e com apoio imperial. Nos seus primeiros séculos o cristianismo enfrentou algumas perseguições e foi várias vezes difamado. Surgiu aí a necessidade de escrever para fundamentar e defender a fé. Na época de São Bento a maior parte disso já existia e era difundido. Bento quando decidiu-se pela vida monástica provavelmente conhecia, mesmo que de ouvir, estas obras. E isso o influenciou durante sua vida.

Neste sentido muitos já tentaram identificar ao ler a Regra beneditina as fontes das quais ele se utilizou. Ao fazerem isso se viu em Bento um homem profundamente inserido e conhecedor da realidade da Igreja de seu tempo. A proposta de Bento nova. Isso pelo fato de sintetizar com maestria as diversas propostas existentes em uma forma de vida sóbria. O estilo de vida monástica surge como uma proposta de vivência fiel do cristianismo.

Para tal ele se utiliza de autores já conhecidos em seu tempo. Entre estes podemos citar Agostinho, Cassiano, Basílio, Orígenes e Cipriano entre outros. Conhecia provavelmente a Didache, a regra de Pacômio, a história dos monges do deserto. A vida de Santo Antão escrita por Atanásio já havia chegado a seus ouvidos.

Diante de tão belos testemunhos Bento se calou, ouviu, assimilou e procurou uma guardar seus valores ao redigir sua pequena regra para iniciantes (cf. RB 73,8).

(InFormAção, Vol. 3, Nº 10, Goiânia, Outubro 2001)

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