MERGULHAR EM AGUAS PROFUNDAS

 D.  Josias Dias da Costa, OSB.

(E-mail: josiasosb@hotmail.com)

Eu me lembro bem de uma cena que vi num dos filmes de Charles Chaplin: o personagem Carlitos levanta bem cedo para um bom mergulho no lago existente ao fundo do barraco em que havia se estabelecido no dia anterior. Ele abriu os braços, deu o primeiro impulso, deu o segundo e saltou de cabeça a baixo. Resultado: o lago era muito raso e ele ficou com a cabeça enterrada na lama.

Daí eu fico pensando: a nossa espiritualidade não pode ser como uma lagoa rasa. A espiritualidade cristã nos leva a águas mais profundas, àquelas águas em que podemos mergulhar sem medo.

Mas, para que entremos nas águas profundas, precisamos saber nadar. Os que não sabem nadar procuram somente as águas rasas, que pouco passam das canelas e mal chegam à cintura. E assim não podem dar o prazeroso mergulho.

Há também pessoas que sabem nadar e não verificam as condições do lago ou do rio. Não buscam aquele que é adequado para o mergulho. Batem a cabeça nas pedras, se esfolam nas pontas dos garranchos, se contaminam nas imundícies dos poluentes.

A Bíblia pode até ser a obra mais lida no mundo, mas quantos conseguem penetrar o mistério que ela contém? Quantos não vão buscar na Bíblia um Deus ao seu modo? Quantos não vão buscar ali um Deus imaginado? Quantos não estão folheando as suas páginas atrás de Deus que não é Deus?

Um gozo intimista, meramente individual, nos é oferecido pelo sistema em que vivemos, que abre à nossa frente, com o seu mercado, as "portas da felicidade". Ele nos oferece o "paraíso" desde que creiamos em suas "doutrinas", sigamos os seus "dogmas", tenhamos cartão de crédito, consumamos tais e tais produtos, apreciemos os programas que as redes de TV acharem convenientes, rebolemos ao som das bandas de sucesso etc. Ele até faz propostas às igrejas: elas devem entrar na onda.

Não creio que devamos ficar carrancudos nas celebrações eucarísticas; ou que devamos deixar de lançar mãos dos meios modernos de comunicação: linguagem apropriada, rádio, TV, bons microfones, músicas mais inculturadas, mais alegres. Mas, esses não passam de meios.  Não são eles a essência de nossa espiritualidade.

E onde está a essência da espiritualidade cristã? Está em algo escandaloso – ou muito careta! - para os que buscam uma religião que prometa aos seus fiéis vida fácil, de puro gozo individual. Está na cruz. É nela que aprendemos a entender a vida, a andar pelo "inacessível chão", a suportar a dor, a ter paciência, a viver com esperança, a vencer as aflições e, acima de tudo, a amar. E amar é o que  mais importa a nós cristãos. É o amor que chegou até nós pelo mistério da cruz que nos leva às águas mais profundas em que devemos mergulhar.

(InFormAção, Vol. 3  Nº 2, Goiânia, Fev. 2001)

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