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D. Josias Dias da Costa, OSB. (E-mail: josiasosb@hotmail.com)
"No princípio era a Palavra", diz o Evangelho de São João (Jo1,1). Não a palavra no sentido humano, não a palavra como obra humana ou como produto cultural. Trata-se da Palavra preexistente quando o mundo não passava de um projeto na mente divina. Era a Palavra que tomava toda a extensão de Deus e que tomaria forma para nos revelar o próprio Deus. "A Palavra estava com Deus e a Palavra era Deus". Portanto, a Palavra relatada no Evangelho era a Palavra com infinito poder. A Bíblia frisa com freqüência o poder da Palavra no processo de criação do mundo: "Deus disse: 'Haja luz' e houve luz" (Gn 1, 3). O primeiro dia foi um dia de luz. A luz veio ao mundo pela Palavra. Mas Deus não parou por aí. Passado o primeiro dia, a Palavra entrou de novo em ação: "Deus disse: 'Haja um firmamento....' e assim se fez" (Gn 1,6). No segundo dia o céu passou a existir para que nele a luz pudesse brilhar com toda a sua força. O mesmo se deu no terceiro, quarto, quinto e sexto dias. "Deus disse" qual era o seu propósito e fez surgir os continentes, os mares e a terra com todos os seus ecossistemas, sua flora e sua fauna. Não esqueceu do sol com seu calor e seu brilho, nem da lua para segurar a terra no seu eixo e espalhar encanto durante a noite. Nem esqueceu das galáxias, constelações e nebulosas, cujas estrelas se encontram a cintilar no espaço infinito. É fabuloso o poder da Palavra. E o mais fabuloso é saber que a Palavra também dá existência à obra-prima do sexto dia. Pela Palavra Deus criou o Homem e a Mulher (Cf. Gn 1,26-27). Sendo a bondade na sua plenitude um atributo de Deus, tudo que Deus faz tem que ser bom. ''É por isso que ao contemplar cada coisa que fez, "Deus viu que isso era bom". Mas, diante do Homem e da Mulher, criados à sua imagem, Deus viu algo mais. Ao colocá-los diante do mundo, com a responsabilidade sobre toda a Criação, Deus passou a contemplar o conjunto de sua obra e viu que tudo isso "era muito bom" (Gn 1,31). No sexto dia da Criação o Homem e a Mulher receberam de Deus palavras de estímulo. Ele os abençoou e desejou-lhes fecundidade, crescimento, responsabilidades (Cf. Gn 1,28s). O projeto de Deus para a sua obra-prima é o Paraíso (Cf. Gn 2). Deus nos quer ver crescer na liberdade e na perfeita harmonia. Ele quer a nossa felicidade. O Paraíso é isso: a felicidade. Mas no meio do Paraíso há uma serpente. "Todo paraíso tem sua serpente" (Robert Johnson, She - À chave do entendimento da psicologia feminina. São Paulo, Mercuryo, 1987, p. 25). E a serpente também disse algo. Mas o que ela disse não era a Palavra. Isto porque a serpente não tem a Palavra. O que ela tem é a antítese ou a negação da Palavra. É a destruição, a mentira, a desordem, a confusão, a morte. Diante da serpente, que faz as coisas parecerem boas e formosas, há a queda de seres humanos, sedentos de livre arbítrio, mas que a todo momento abrem os olhos e percebem-se nus, diante de Deus. As pessoas, sob o domínio de paixões desordenadas (serpentes), se vêem, de repente, diante das conseqüências de seus atos. E esta situação de nudez as leva a confundir o "lugar" em que estão com o "estado de medo" em que se encontram. (InFormAção, Vol. 4, Nº 7, Julho 2002) |