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D. Josias Dias da Costa, OSB. (E-mail: josiasosb@hotmail.com)
Certa vez, pude observar esta cena contundente: uma mulher debruçada sobre o caixão de seu filho, de oito anos, chorava e dizia repetidas vezes: "Fala comigo, meu filho.... Fala comigo..." É claro que o menino não poderia falar com a mãe... Ela por certo sabia disso. Mas, diante da não aceitação da morte inesperada do filho, ela esperava um milagre: se o menino falasse com ela, dirigisse-lhe algumas palavras, ele estaria do jeito que ela o queria – estaria vivo! Isso é óbvio demais. Mas não tão óbvio quanto parece. Aquela mãe, em seu desespero, me fez refletir – e muito! – sobre a importância das palavras em nossa vida. Uma criança, nos primeiros anos de vida ainda não tem o domínio das palavras. Mas nem por isso ela deixa de se comunicar. O seu organismo emite mensagens a todo instante e estas mensagens, que chegam aos adultos através do choro, de contrações da face, de sorriso, são captadas por eles, que nelas identificam as necessidades e os desejos da criança. A palavra infância significava originalmente "sem fala". A criança não tem as palavras, como as têm os adultos. Nos seus primeiros anos de vida, à medida que cresce, ela vai identificando nas palavras dos adultos os sons que todo bebê emite. E as primeiras palavras são aquelas mais significativas: mamãe, "mamá", papai, "papá", vovô, vovó, "titica", "dodói"... No correr dos anos, a criança vai descobrindo o mundo dos adultos e sente a necessidade de entender este mundo, que para ela é complicado. Ela quer saber o significado e a razão das coisas, chegando à "idade das perguntas". Mãe, por que isso, por que aquilo? Como é que eu nasci? Quem é Deus? Quem é o pai de Deus? Deus é grande? Que tamanho que ele é? As palavras têm um significado e também um significante. É através delas que a criança vai expressando o conceito das coisas, identificando a sua essência e fazendo as relações necessárias com o cotidiano. A criança constrói aquilo que mais tarde, será o elemento mais importante para identificar a personalidade do adulto: a sua história de vida. E para construir a sua história de vida, a criança vai tomando como modelos inicialmente a mãe, o pai, os avós, os irmãos, os tios, os primos, e depois os vizinhos, o médico, o dentista, padre, a freira, o professor, os colegas, a catequista, os artistas de TV etc. A personalidade se constrói através da intencionalidade da criança que a impulsiona para o futuro (Cf. Gordon W. Allport, Desenvolvimento da personalidade, São Paulo, E.P.U., p. 120). A criança, embora dependente socialmente, não é um ser social. Nos primeiro anos, ela concentra tudo em si mesma. Para tornar-se um ser social ela terá que modificar esse comportamento. Daí que as palavras, sejam as que incentivam, sejam as que repreendem, acompanhadas das virtudes dos adultos, vão sendo interiorizadas e assim constróem a estrutura da personalidade do adulto que um dia a criança será. Pela palavra, Deus criou todas as coisas e criou o homem e a mulher (Gn 1). Pela palavra é que nós somos criados. Nós somos, pode-se dizer, "frutos da palavra". E é pela palavra que nós expressamos o que somos. E é por ela que nós chegamos à nossa história de vida. Negar à criança a palavra é negar-lhe a possibilidade de um futuro. É negar-lhe a vida. A antítese da palavra, que se manifesta sob formas de mentira, repressão e violência, e não sob as virtudes da verdade, da ternura e do amor, causa sérios danos à personalidade de uma pessoa. É que a negação da palavra faz com que prevaleça uma personalidade infantil no corpo do adulto. E isso, sem dúvida, é uma aberração. (InFormAção, vol. 4 nº 09 Goiânia, Setembro 2002). |