SER MONGE HOJE

 D.  Josias Dias da Costa, OSB.

(E-mail: josiasosb@hotmail.com)

“Que em tudo seja Deus glorificado” (São Bento)

Sou um monge beneditino e sigo a Regra de São Bento que estabelece o princípio para uma vida comunitária centrado no lema Ora et labora (Oração e Trabalho). Muitos me perguntam se sou um monge contemplativo e minha resposta é sempre a mesma: “Este é o meu desejo”. As pessoas então me perguntam, na sua curiosidade, se eu vivo enclausurado no Mosteiro. E eu digo que não; que ministro mais de vinte aulas semanais, numa escola pública, em três períodos; que auxilio os párocos de duas cidades; que milito no Movimento de Direitos Humanos e no Movimento Ecológico; que presto assessoria ao Movimento Popular e até a Partidos Políticos. 

Minha resposta deixa muitas pessoas confusas e algumas até arriscam uma conclusão: “Então, você não é um monge contemplativo, mas ativo”. Ao que tenho de esclarecer que contemplação não é sinônimo de clausura; que contemplação é uma maneira de ser no mundo, em que a pessoa vive impulsionada pelo Espírito de Deus; que contemplação é um estágio do espírito em que a pessoa, perpassando todos os estágios da oração, se coloca diante do mundo olhando a tudo e a todos com os olhos de Deus; que contemplação não é um privilégio dos monges, mas de todas as pessoas capazes de entregar-se numa ação amorosa pela transformação das estruturas sociais que impedem o ser humano de viver a vida do jeito que Deus quer, ou seja, no pleno exercício da sua liberdade. 

Embora não aceitando a pecha de “monge ativo” em oposição a “monge contemplativo”, não me sinto à vontade para dizer tão simplesmente que “sou um contemplativo”. Dizer isso seria ousadia demais, porque a contemplação não é um estágio tão fácil de ser atingido. A relação oração e trabalho, ainda que seja necessária, não se dá de modo tão simples. Conciliar as duas coisas de maneira equilibrada e dinâmica continua sendo um desafio para as comunidades monásticas e, porque não dizer, para todos os cristãos. 

Numa sociedade em que as pessoas se despertam para o elemento religioso, mesmo enquanto estrutura ou arquétipo, ou seja, como dimensão essencial do ser humano, a vida monástica, tão antiga quanto a vida cristã, reaparece no imaginário social como se fosse um elemento exótico da pós-modernidade. E os apelos aos monges são grandes: as pessoas vão ao Mosteiro em busca de orientação espiritual, psicológica, educacional e até mesmo de um caminho a seguir no mundo selvagem dos negócios que privilegia alguns empreendimentos e ao mesmo tempo faz outros despencarem. 

Vivo num Mosteiro, na cidade de Mineiros, no Sudoeste de Goiás, com mais quatro monges e às vezes maldigo a hora em que um diretor da Fundação Universitária daquela cidade veio convidar-me a lecionar Filosofia. É que depois, surgiram outros apelos: “Fique com estas aulas de História”, “fique com estas de Metodologia da Pesquisa Científica”, “pegue também estas de sociologia”. E o monge passou a trabalhar mais, a viver sob a pressão dos prazos, a se submeter à burocracia. Mas, o que fazer, se ele pegou gosto pela coisa; se ele encheu-se de paixão pela arte de ensinar; se ele sentiu o prazer de enfrentar o desafio que é educar os jovens; e, sobretudo, se ele sentiu o maior prazer ainda em vê-los crescendo na sua consciência diante do mundo?     

Quem trabalha muito se sente cansado, mas o cansaço não elimina o prazer que tanto faz bem ao espírito daqueles que, nada antepondo ao amor de Cristo, transformam a oração cotidiana num ato de entrega a Deus, para que Ele seja uma força constante a alimentar a disposição ao trabalho e ao acolhimento dos irmãos.

Publicado em A Tribuna, de Campinas - SP

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