TEMPERAMENTO E MISSÃO

 D.  Josias Dias da Costa, OSB.

(E-mail:  josiasosb@hotmail.com)

Conforme se misturam os humores no organismo das pessoas elas se dispõem a comportar-se dessa ou daquela maneira. É a essa disposição resultante da conjugação de humores que se dá o nome de temperamento 

Hipócrates, o pai da Medicina, identificou, no século V a.C. quatro humores fundamentais: o sangue, a fleuma (linfa, sôres, muco nasal e intestinal e saliva), a bílis amarela e a atrabílis ou bílis preta.  

Segundo a doutrina de Hipócrates, retomada ao longo da história por vários filósofos e médicos, como Platão, Aristóteles, Avicena, Averrois e Kant, a superioridade de qualquer um desses humores sobre os demais é que caracteriza o temperamento. (Cf. Nicola Abbagnano, Dicionário de Filosofia, São Paulo, Mestre Jou, 1982). 

Não se pretende aprofundar aqui essa doutrina que a partir de Kant se transformou até sair do domínio da medicina para cair no domínio da filosofia e, a partir século XIX, também da  psicologia, que deixou de falar em temperamento para falar de caráter.  

Na linguagem comum as pessoas se referem ao temperamento para classificar as pessoas.  Só que, em lugar de termos como sangüíneo, fleumático, bilioso e atrabilioso (ou melancólico), as pessoas lançam mão de outros como "temperamental", "sentimental", "colérico", "zangado", "nervoso", "impaciente", "esquentado", "calmo", "dócil", "tristonho", "tranqüilo", "fogoso", "alegre", "amável" etc.  

Convém ressaltar que na História da Salvação todas as pessoas que foram chamadas por Deus tinham um determinado temperamento. Alguns tinham um gênio difícil de se lidar.  Outros eram marcados pela serenidade. Quem ler Amós pode ver nele um homem um tanto ríspido, bravo. Quem ler Oséias pode ver nele um homem muito dócil e com muita calma, paciência e ternura. Quem ler o Novo Testamento verá como Jesus chamou para acompanhá-lo pessoas rudes e de difícil entendimento (Pedro, Filipe), de estopim curto (Tiago e João), de cabeça dura como a de uma mula (Tomé).  Embora muito sábio e contemplativo, o Apóstolo Paulo não era um homem de temperamento tão fácil de se lidar.  

Mas vale também dizer que Deus não está preocupado com o temperamento das pessoas. Amós e Oséias, tão diferentes um do outro, cumpriram, cada qual a seu modo, mas com a mesma fidelidade e determinação a missão que Deus lhes confiou. Pedro e os outros Apóstolos receberam a confiança do misericordioso  Mestre e dele aprenderam o caminho da vida em três anos de paciente ensino. E vejam bem: a Pedro Jesus confiou a sua Igreja (Mt 16,18); a Tiago e João ensinou a controlar os seus gênios e a canalizar o temperamento impetuoso a serviço da paz; a Tomé, que tinha tanta dificuldade em crer, o Mestre mexeu com a sua sensibilidade e elevou a sua percepção a tal ponto que ele chegou a dizer: "Meu Senhor e meu Deus" (Jo 20,28).  E Paulo, que chegou a ser abandonado no meio do caminho, por alguns companheiros, foi o Apóstolo que mais deixou igrejas cristãs espalhadas pelo mundo afora. E como todos os outros Apóstolos, deu alegremente a sua vida pelo Cristo ao qual um dia perseguiu.  

Numa visão do Apocalipse os Apóstolos aparecem com seus nomes inscritos em doze alicerces da Cidade Santa (Cf. Ap 21,14). Cristo quis dar uma vazão ao seu amor, confiando a missão de anunciar o Reino de Deus a pessoas tão diferentes, como os Apóstolos e como nós, mas iguais na fidelidade e na disposição de doar-se pelo Reino de Deus ao próximo tão sedento de justiça e de paz. Não somos seres perfeitos, mas todos, chegando à consciência de nossas imperfeições, temos a missão de buscar o mesmo caminho da santidade. Ou seja, o caminho do amor, que se abre à nossa frente com a nossa capacidade de crer em Deus e crer no próximo, lutando pelo bem dele.

(InFormAção, Vol. 4, Nº 10, Goiânia, Outubro 2002)

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