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D. Josias Dias da Costa, OSB. (E-mail: josiasosb@hotmail.com) “Só Deus é Deus” – costumava dizer o velho, bom e agora Arcebispo emérito de Goiânia, Dom Antônio Ribeiro de Oliveira. E é isso mesmo: Só Deus é Deus! Ninguém com Ele se confunde. Ninguém tem o seu esplendor ou a sua beleza. Ninguém perscruta os corações como Ele faz. Não há quem seja tão bom como Ele é. Ninguém tem a sua grandeza e o seu poder. Não há quem seja capaz de preencher, como Ele preenche, toda a extensão do universo. Ninguém, a não ser Deus, é o que é. A lógica nos ensina que os seres humanos se inserem numa extensão que não é somente sua. Um homem ou uma mulher é o que os outros homens ou as outras mulheres são. O ser humano é um “animal racional”, “religioso”, “trabalhador”. Ele tem uma essência comum a todos e essa essência está ligada a alguma coisa. O conceito de “animal” tem uma extensão maior que o de “homem”. Na extensão de “animal” está também o jacaré, por exemplo. Mas nenhum ser humano é jacaré por causa das diferenças específicas – a racionalidade, a religiosidade, a capacidade de transformar a natureza e produzir cultura. Já Deus não é isso ou aquilo. Sua essência é somente sua. Ele é a sua própria essência. Por isso Deus simplesmente é. Não há nada que Ele seja a não ser somente Ele. Não há nada mais do que Ele para ser o seu predicado. Ele é sua própria extensão. Por isso, quando Moisés quis saber quem Ele é, a resposta foi esta: “Eu sou o que sou” (Ex 3, 14). Às vezes nós dizemos que Deus é isso ou aquilo. Um tio-avô e também padrinho meu, Bento Antônio Dias, apelidado Bentinho, único de sua geração que conhecia na minha família, sempre que ficava contente ou preocupado, dizia, numa frase, tudo aquilo que sabia sobre Deus, como jaculatória constante: “Deus é grande, Deus é bom e Deus é Pai!”. Os antigos hebreus chamavam a Deus de “Javé” (Ex 3,14), “Elohim” ou “Javé Elohim” (Javé Deus – Gn 2,4), “El Shaddai” (Deus da montanha – Gn 17,1), “El-Roí” (Deus da visão – Gn 16,13), “El Berit” (Deus da Aliança), “El‘Elyôn” (Deus Altíssimo – Gn 14,18 e Salmos), “Deus do céu” (Esd 1,2; Dn 2,18), “Deus dos Exércitos” (1Sm 1,3), “Santo de Israel” (Sl 70,22), “Deus de Israel”, “Deus de Judá”, “Deus de Abraão”, “Deus de nossos pais” (Cf. Ex 3,6). Eles se referiam a Deus como um “pastor” (Sl 22,1), um “pai” (Os 11,1, Sl), uma “mãe” (Is 66,13), um “escudo” (Sl 3,4), um “rocha” ou “fortaleza” (Sl 18,3). E diziam que ele é “grande”, “bom” (Sl 134; e 146) e “rico em amor e fidelidade” (Ex 34,6). Nos evangelhos, Jesus nos autorizou a chamar Deus de “Pai” (Lc 11,1; Mt 6,9). E quando dizemos que Deus é “nosso” Pai, isso implica múltiplas coisas. Uma delas é que somos filhos e filhas d’Ele e como tais nos tornamos irmãos e irmãs. E é como filhos e filhas de Deus e irmãos e irmãs uns dos outros e do próprio Jesus, que devemos agir no mundo. Noutras palavras, só está autorizado a se dirigir a Deus como Pai quem for capaz de ser fraterno. Quando se diz que Deus é bom subentende-se que Ele possui a bondade em plenitude. Ele e somente Ele é plenamente bom. Quando São João afirmou que “Deus é amor” (1Jo 4,8.16) ele quis dizer que Deus nos ama com um amor que ocupa toda a sua extensão, ou seja, com um amor infinito. Embora tenhamos a necessidade de nos preservar como imagem de Deus e construirmos diuturnamente a nossa semelhança a Ele, buscando, como o próprio Jesus nos ordena, a perfeição do Pai celeste (Cf. Mt 5,48), jamais podemos ter a pretensão de querer ser Deus. Quem, dentre os seres humanos, arvorar-se em ser Deus, tornar-se-á uma aberração. Isso é o que são os “soberanos das nações” e os tiranos deste mundo, que se colocam acima e se julgam senhores de tudo e de todos. Eles não suportam que Deus seja Deus e querem que Deus – para eles nada mais do que uma imagem que fazem de si mesmos – lhe seja submisso e satisfaçam aos seus interesses de dominação. Filhos e filhas de Deus são os que reconhecem a soberania, a grandeza, o esplendor e a beleza de Deus e se dobram diante d’Ele para fazer sua vontade. São os que, a cada dia, querem que Deus seja Deus, ou seja, que Ele seja o que Ele mesmo é. Nós, que ousamos chamar Deus de Pai, precisamos, com toda a humildade, querer e deixar que Deus seja Deus, ainda que, não deixando, Ele continuará sendo. (InFormAção, Vol. 5, Nº 1, Jan.-Mar. 2003) |