UMA REFERÊNCIA À VIDA

 D.  Josias Dias da Costa, OSB.

(E-mail:  josiasosb@hotmail.com)

Uma pedra nasce, cresce e tem uma longa vida pela frente. Por isso ela não precisa se preocupar. Aos nossos olhos ela se encontra aquietada naquilo de que é constituída. Não foge de seus próprios limites e não sai de nosso caminho por si mesma.

Nós, seres humanos, ao contrário das pedras, somos seres a caminho, nos projetamos para além de nós mesmos, pensamos o mundo existente e imaginamos um mundo diferente. Nós criamos a utopia e agimos sobre o mundo para transformá-lo. E ao transformar o mundo nos transformamos também.

Nós já nascemos cheios de desejos. Quando estávamos sendo gerados, o que existia ainda latente em nós, enquanto seres em formação, impulsionava-nos para a vida em sua plenitude. Éramos uma espécie de João Batista, saltitantes, lá dentro do ventre materno, em razão da alegria existente no mundo exterior.

 Essa nossa vida, movida por desejos, nos faz, desde o início, uma constante busca de realização. Quando, porém, os desejos humanos são podados – a criança quer afeto e não tem, quer paz e não encontra, quer segurança e esta não lhe é dada – desenvolve-se em nosso interior um sentimento de morte. Apegados a este sentimento passamos a amar a morte e impedimos a vida de desabrochar. A vida torna-se um tormento e para suportá-la temos que buscar compensações,  apegando-nos a coisas e mais coisas.

As pessoas egoístas são aquelas que, não suportando a vida, se escondem atrás das coisas. Tudo elas querem para si. Tudo tem que girar em torno de si. O centro do mundo é o seu próprio umbigo. O egoísta é insensível diante das necessidades dos outros. Os seus olhos medúsicos transformam as pessoas em coisas para que elas possam ser usadas, manipuladas, exploradas.

A família, com as funções de reproduzir a sociedade e  criar as condições necessárias para o desabrochamento da vida, ou seja, para o crescimento físico, afetivo, mental e espiritual, pode-se tornar também um perigoso canteiro de semeadura da morte. Uma família estruturada no egoísmo, na insensibilidade de seus membros, torna-se uma indústria de pessoas autoritárias, invejosas, ciumentas, fofoqueiras, corruptas, parasitas, inseguras, medrosas. Pessoas não amadas não sabem amar. Não se amam e não amam os outros. A sua vida é insuportável e a sua lógica é tornar também insuportável a vida dos outros.

"Deus é Amor" (1Jo 4,8), e o amor é sempre uma referência à vida e ao seu crescimento. Nunca se aprende a acreditar em Deus enquanto se ama a morte, porque as pessoas que amam a morte tudo fazem para destruir a vida. Muitas vezes elas são "piedosas", falam muito em Deus, chamam por Ele a todo instante. Mas querem que Deus seja do seu jeito, ou seja, querem que Ele seja o "deus da morte". A essas pessoas Jesus disse: "Nem todo aquele que me diz 'Senhor, Senhor' entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus" (Mt 7,21).

(InFormAção, Vol. 3, Nº 6, Goiânia, Junho 2001)

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